Caminhar sobre Pedras

Lembro-me, quando era adolescente, de andar e correr nas pedras da Ilha do Mel. Gostava de pular de uma pedra para outra e descobrir lugares diferentes. Naquela época a ilha era bastante tranquila, mesmo assim, procurava por lugares isolados e de difícil acesso. As pedras são grandes, arredondadas e em alguns locais com encostas íngremes. O mar entra no meio das pedras fazendo piscinas naturais, ou será que são as pedras que entram no mar?!!

No caminho de Santiago, indo para Fisterra, após ter andado uns 1.000 km, vendo o mar na chegada a Muxia, senti uma forte emoção.  Resolvi achar um caminho pela praia, comecei a andar sobre as pedras. Estava chovendo, com mochila e bastões. Iniciei devagar e fui me empolgando, claro que escorreguei e cai. Não foi nada, apenas arranhões na mão, continuei com mais cautela.

Aqui na Espanha tenho procurando me exercitar regularmente, estou fazendo algo interessante, caminhar sobre pedras. Saindo de casa, tanto para a esquerda em direção à praia de San Juan como para a direita em direção a Alicante, ando pela orla costeira entre pedras, morros, maciços e trilhas.  As pedras são diferentes da Ilha do Mel, são menos arredondas, menores, em alguns locais fazem um tipo de plataforma com degraus e também são menos lisas.

O exercício consiste em andar nas pedras o mais rápido possível sem cair e principalmente sem me machucar. Como o terreno e as pedras são irregulares, o tempo todo estou pulando, subindo e descendo, procurando manter o equilíbrio e o nível para diminuir o esforço. Acredito estar movimentando muitos outros músculos além daqueles que usaria em uma caminhada.

Necessito manter a concentração para que os pés achem os lugares para pisar. Procuro dar passos e fazer com que cada pé pise em uma pedra diferente, não olho para eles, mantenho a atenção nos próximos metros, nos próximos passos. Conservo um ritmo no caminhar para não desequilibrar e manter o movimento, não colocando os dois pés na mesma pedra.

Sinto que esse exercício também atua no celebro, pois de uma forma “instintiva”, tenho que escolher a melhor rota, calcular a distancia entre as pedras e os passos, o desnível, a inclinação dos pés, a força para manter o ritmo, e outras coisas mais. Tudo isso muito rápido, passando pelo consciente e inconsciente. Não deixa de ser um exercício de raciocínio, ou mais importante que isso, uma forma de meditação.

Este caminhar exige atenção, observação, reflexão, concentração e por fim, acredito que gera um estado meditativo. Para não cair e manter a velocidade tenho que estar 100% presente e focado no que estou fazendo, a mente não tem tempo ou espaço para pensar em mais nada, se pensar, ou caio ou perco o ritmo.

Caminhar sobre pedras

Existem rotas por pedras maiores e rotas por pedras menores. Andando sobre as maiores, o raciocínio é mais complexo e lento, exigem maiores pulos, mais esforço físico, menor velocidade, dando passos sobre a mesma pedra. Dá uma sensação de maior segurança. Sobre as pedras menores, requer um raciocínio mais rápido, menos espaços para pensamentos, maior atenção e velocidade, ritmo mais constante. Parece ser mais suave, o caminhar.

Procuro perceber as reações do corpo. Como é o processo para manter o equilíbrio, o dominar de uma perna sobre a outra, a busca da segurança. Como uso a visão, a analise, o raciocínio, a escolha e ação.

Normalmente minha perna de apoio e de ataque é a direita. Ela sempre está à frente quando a situação exige pulos, subidas ou descidas mais fortes, ou fica atrás quando a necessidade é de apoio e sustentação. De uma forma consciente tenho procurado fazer estas funções com a esquerda. Notei como o corpo trapaceia, dá passos menores e transfere assim, novamente a função principal para a perna direita.

Outro ponto é o equilíbrio. Qual momento estou realmente equilibrado? Parece que este ponto ocorre apenas em uma fração de segundo, todo o restante é desequilíbrio controlado. Isso reforça meu pensamento sobre o que é equilíbrio, percebendo que equilíbrio não é um ponto, mais sim, a alternância entre pontos de desequilíbrio.

Existe um momento que o risco de cair aumenta, isso ocorre quando começo a me cansar ou a relaxar, nessa hora devo parar. Na realidade deveria parar um pouco antes disso.

Com este exercício tenho feito correlações com situações do dia a dia, por exemplo: entre a diferença de caminhar sobre pedras grandes e pequenas e como enfrentamos eventos de dimensões supostamente diferentes, principalmente notando que o local de chegada é o mesmo.

E para finalizar, quando termino a caminhada, tomo um banho de água fria. Quem me conhece, sabe que não gosto de água fria. Estou tentando perceber o que o corpo sente com a água, onde reside a sensação, separando a sensação do corpo com da percepção da consciência. Acho que com o inverno, não vou conseguir, mas estou descobrindo novas possibilidades.

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