Chegando a Sevilla - emoções a flor da pele

04-07 (65) Castilblanco até Sevilla – 46 km

 

Estou percorrendo os caminhos que levam a Santiago de Compostela há 66 dias. Saí do Brasil há 77 dias; entre caminhar a pé e bicicleta foram 2.145 km. Somado ao período de preparação no Brasil, dá um total de 3.607 km percorridos.

Pretendo fazer uma descrição detalhada deste trecho de hoje, como fui sentindo o momento de chegar a Sevilla e encerrar uma etapa. Para aqueles que, como eu, não gostam de muitos detalhes, passem o olho, quanto houver uma parte que parece interessante, leiam e quando ficarem aborrecidos novamente, pulem.

Para mim, escrever desta forma será um exercício.

Considero-me uma pessoa com pouca memória para detalhes. Vamos ver!

Estou no terraço do albergue, deitado em um banco-sofá confortável. O céu, como tem ocorrido nos últimos dias, está bastante azul, o sol brilha com força e a temperatura na faixa dos 35 graus, subindo.

Tem um pouco de vento, ajuda, mas não refresca. Existem algumas redes, uma jacuzzi, que já está com a água morna, jovens conversando em uma língua estranha, não tenho a mínima ideia de onde possam ser.

Assim, começo a me lembrar, a escrever e descrever.

Tive uma boa noite de sono, o calor deu um pouco de folga e a noite estava fresca. Claro que dormi com os protetores auriculares e tapa-olhos: foram acessórios essenciais no caminho.

Acordei às 6h30, vi que ainda havia peregrinos se preparando, virei para outro lado e continuei na cama. Para percorrer o caminho a pé, nesta região, é necessário sair cedo, parar no máximo às 11h30, caso contrário, será exaustivo e nada gostoso.

Como é meu “ultimo dia” tenho que manter o ritmo e ser o último a sair. Fiquei na cama até às 7 hs. Quando senti que não havia mais ninguém, levantei-me.

Comecei a me arrumar vagarosamente, espalhei as coisas em várias camas; estava um pouco atrapalhado, acho que era a emoção deste dia.

Passei vaselina na virilha para não assar, óleo de amêndoa nos pés, para mantê-los hidratados e flexíveis, protetor solar nas pernas, braços, rosto.

Estou com um bronzeado de zebra. Tomei vitaminas, arrumei a mochila de bike, atenção para não deixar nada. Peguei as garrafas de água que coloquei no congelador na noite anterior.  Esta é uma boa maneira de ter água fria durante a manhã. Dei uma olhada na geladeira, desta vez estava limpa. Várias vezes, peregrinos deixam coisas (iogurte, suco, pão, frutas) que compram em excesso e não querem carregar na mochila, eu aproveito para comer, em vez de irem para o lixo.

Saí do albergue quase às 8hs em direção ao bar para tomar café. Tostadas com geleia de pêssego, leite com um pouco de café, por aqui é leite manchado, suco. Tive que me acostumar sem fruta e iogurte, na maioria dos locais não tem. E, por fim, o alongamento, que não tenho feito todos os dias, mas como era um dia tranquilo, resolvi fazer.

Começo a pedalar as 8h32, porém, antes, passei no posto para calibrar os pneus. Estou sem bomba, não quero correr o risco de ficar com pneu vazio pelo caminho. O calibrador estava limitado a 3,5 kg de pressão. Desejava colocar 5 kg, fui ao frentista para pedir ajuda, ele disse que não entendia o que eu falava, estranho! Estou há mais de dois meses na Espanha e até agora fui compreendido. Uma moça que abastecia me entendeu e explicou para o frentista, ele disse que eu estava maluco e iria estourar o pneu. Segui o caminho; depois de uns 4 km apareceu outro posto e consegui calibrar o pneu do jeito que desejava.

Gostaria de poder falar e me expressar com a mesma lucidez e coerência que pensava. Os pensamentos e a conversa mental são muito rápidos, ocorre uma perfeita conexão de ideias, frases, palavras. Será que existe uma forma de trazer essa lucidez para o mundo exterior? Será possível não perder a coerência com a baixa velocidade de falar ou escrever?

Minha percepção do mundo exterior e interior está muito ativa, notei como somos multi-processos, ou seja, podemos fazer várias coisas simultaneamente.

Vento na pele, narrativa mental clara sobre a ideia de escrever com o maior detalhe possível o que senti e o que aconteceu neste trecho, olhando a rota no GPS, cuidando para não cair em buracos, desviando de pedras, vendo a paisagem, as pessoas no campo, escolhendo boas imagens para tirar fotos, escutando música, cantando, cuidando da velocidade, cuidando do tráfego, tomando água gelada, refletindo o que fazer depois de chegar a Sevilla.

Surge uma emoção forte, choro, lágrima, alegria, riso, gargalhada.

Foram quase 15 km sem pedalar, o vento, um pouco frio, tive que até colocar a jaqueta, mantinha uma boa velocidade.

Um dia com apenas descidas e planos, um presente, não fazia qualquer esforço. Curtia a descida, pensando na conclusão de uma etapa. Alegria, felicidade, choro, emoção, riso, gargalhada, tudo junto, uma sensação muito estranha.

Lembrança de fatos da vida, muitas “vitórias” e “fracassos”. Recordei o dia que fiz meu melhor voo de parapente, meu recorde, a reprovação pela quinta vez consecutiva no curso de inglês, a festa na Ilha do Mel comemorando a admissão ao colégio militar, aventuras com o veleiro em Pontal do Sul com amigos, virando e desvirando, passar no vestibular, bailes de debutante, eu dançando valsa, mal é claro, baile de formatura na faculdade. Escutava no ipod Bolero de Ravel. Vários locais lindos que conheci, a realização profissional e a contribuição na construção de uma boa empresa.

A cada lembrança, uma emoção, muitas lágrimas, uma realização.

Lembrança de pessoas que fizeram e fazem parte de minha vida. Desejar transmitir a emoção para todos, desejo de compartilhar o que sentia, inundar o mundo com essa alegria.

Quanto mais me lembrava de pessoas e situações, mais emoção sentia mais energia externava, mais energia recebia.

Sentia-me eufórico, colhendo e semeando, dando e recebendo, juntos. Será o ultimo ou o primeiro dia, existe fim e/ou começo? Deixarei de ser um peregrino ou agora sou também um peregrino.

São 9h30, já percorrera uns 20 km. No guia estava escrito que apenas teria plano, encontrei pequenas subidas, pedalava sem esforço, estava leve. Acho que a emoção da chegada elimina a sensação do esforço. Faltam uns 25 km, seguir pela estrada ou pelo caminho? Caminho é claro, demora mais.

Agora seguia exatamente a rota marcada no GPS, poderia demorar mais, era exatamente isso que desejava. Tinha que atravessar um rio, sem ponte, sobre pedras soltas, a profundidade da água começou a aumentar, a bike a patinar, poderia cair e me molhar, sem problema. Com o calor que estava, seria até divertido. Não cai, e segui.

Pedalava devagar, não queria chegar, não queria acabar. Olho para o odometro e calculo que ainda faltam uns 15 km, oba! Sentimento inverso dos outros dias.

Na cidade de Guillena, passo empurrando a bike no meio de uma feira, barracas vendendo frutas, verduras, caramujos, cebola. Roupas, rolos de tecido, bolsas, vestidos. Roupas íntimas, bijuterias, artesanato.  Era cedo, 10h30, a feira ainda estava sendo montada e havia poucos compradores.

Passei por uma área cheia de lixo, pneus velhos, resto de construção, móveis estragados, tudo jogado na rua, me lembrei de alguns locais no Brasil, coisa feia. O caminho traçado no GPS me levava para um córrego sujo, parecia esgoto. Apareceu um barranco de uns 4 metros de altura, parece que água levou a estrada, procuro como passar e não acho. Tenho que voltar e tentar achar outro acesso.

Estava difícil conseguir voltar para a rota marcada no GPS, ela desapareceu, agora é uma enorme plantação de girassol. Segui procurando o caminho, não via marcas, não via as flechas amarelas, será que terei de desistir e ir pela estrada? Em fim achei. Bom!

Na minha frente, apareceu uma lebre, um dos poucos animais que vi no caminho, tentando fugir desesperadamente. Do seu lado direito, estava um cerca de grade, à esquerda, a estrada com carros e, atrás, eu de bicicleta, a lebre corria tanto que até levantava poeira. Correu por uns 200 metros até que achou uma entrada na cerca.

Meu caminho também era no meio dos girassóis, achei uma estrada e vejo novamente a lebre. Mais uma vez ela corre, desta vez, para dentro da plantação e desaparece.

No caminho, tive que fazer um desvio, havia um alagado no meio da estrada, empurrei a bike por uns 100 metros em uma trilha fechada, mais uma experiência.

Neste dia acabei cruzando apenas um peregrino, estava de bike, “bue caminho”.

Seguia o caminho por uma estrada de terra, com subidas e descidas leves, escutava músicas em sequência aleatória, algumas que não havia ouvido, mesmo depois de 120 dias. Começou a tocar uma música indiana da Deva Premal, eu continuava no meio da plantação de girassol. Parei e cantei em voz alta, agradeci.

Identifiquei-me com o girassol, acompanhando o sol, pensei eu, sua vida, do florescer, secar, morrer, semear, crescer, florescer,... Identifiquei-me com o Sol, aquecendo, iluminando, amanhecendo, entardecendo. Hora me sinto girassol, hora sinto-me sol. Emoção profunda. Alegria, choro, risada, música.

Terminado o caminho de terra, vejo uma autoestrada à minha direita, cheia de carros e caminhões, todos parados. Engarrafamento, lembrei-me, é claro, de São Paulo, das marginais. Estava voltando à vida normal de uma grande cidade.

Seguia a rota marcada no GPS, muitas ruas, esquinas, viadutos, semáforos, rotatórias, virar à direita/esquerda, difícil de seguir. Parei em uma ponte para tirar foto e um motoqueiro parou para me dizer que estava indo no sentido errado!

Agradeci, não estava, faltava pouco para chegar a Sevilla e não muito com se estivesse indo no outro sentido, a Santiago.

Ando no meio do trânsito, muitos carros, não sabia onde iria chegar, não tinha noção da direção a seguir, apenas me guiava pelo GPS.

Passei por um local cheio de galpões e empresas, me lembrou de Cumbica/Guarulhos. O “fim” do meu caminho passa pelo meu “começo” em Guarulhos, da natureza à civilização, novamente emoção, choro, alegria. Fim e começo interligados!

As calcadas, cheias, era hora do “almoço”. O bom hábito espanhol é ter 5 refeições diárias, o café da manha as 7h o “almoço” lanche das 10h o comer às 14h, merendar às 18h e o jantar às 22h. Passava por um bairro comercial, com vários bares e restaurantes, um grande movimento de pessoas.

Cheguei ao albergue e a Sevilla às 11h42.

Minha mão está doendo, comecei a escrever as 13h e parei às 15h. Vou almoçar ,estou com fome, depois dar uma pequena volta, em seguida, colocar meu diário em dia.

Comentários  

 
0 # Que delícia !!!Texe 12-07-2011 18:10
Fala Clóvis, parabéns pelo caminho. Fortes emoções.
Abraços.
Teixeira
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0 # Que delícia !!!Clovis Fernando Greca 11-09-2011 17:18
Oi Texe

Até hoje sinto uma forte emoção quando lembro deste trecho, quando leio o relato ainda choro, dou risadas, me arrepio, e muito mais.
Escrevi com o coração aberto, cada palavra carrega um mundo de emoção e sentimentos.
Se consegui que tenha sentido algo parecido, me alegro. Sinto que estou no rumo e com perseverança, avançaremos para um mundo melhor.

Um forte abraço
Clovis
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