O caminhar solitário

O Caminhar Solitário

Pareceu-me um bom tema para refletir e iniciar essa etapa do caminho. Desde que saí de Santiago em direção a Fisterra, deixo o titulo fazer parte constante dos meus pensamentos e sentimentos.

Todas as ideias abaixo não são necessariamente corretas, apenas escrevo minha compreensão, minha verdade que com certeza é relativa.

Conforme o referencial que adoto o tema é verdadeiro ou falso, não importando onde, como, quando, com quem ou qualquer condição exterior. O caminhar solitário depende exclusivamente do referencial escolhido. O melhor é que sempre existiram duas verdades: O caminhar é solitário ou nunca o caminhar é solitário. Essas duas verdades coexistem simultaneamente conforme a consciência se focaliza.

Como duas verdades opostas podem existir juntas?

A consciência humana, o Ser, apenas se reconhece como um indivíduo e separando, usando uma referência exterior porem, a referência é criada com base nas experiências e expectativas do próprio Ser. Isso implica que, nem sempre são as mais adequadas ou reais, mas são verdadeiras para o Ser. Assim, se usarmos outras experiências e expectativas, a referência muda e nossa verdade muda junto.

O que nos faz escolher as verdades que usamos como referência?

Quando estamos dormindo e sonhado perdemos as referências exteriores, perdemos as verdades relativas. Tudo passa a ser possível, o mundo dos sonhos é livre. Não existe uma consciência separada, sonho e sonhador, estão juntos.

O mundo dos sonhos projeta no Ser, com base nas impressões obtidas durante as horas de vigília, a sua realidade.

As sensações de solitário ou não, individual ou grupo, separado ou unido, são necessárias a consciência humana. As religiões e conceitos filosóficos hora vão em uma direção, valorizando o único, hora vão em outra, valorizando a diversidade. A própria expansão e retração do universo ou mais simples, a respiração com a expiração e inspiração, são exemplos. Não existe uma parte sem a existência da outra. Só existe dia se existir noite. O mundo que adotamos sempre será dual e usamos um referencial externo para sentir-se relativamente ao Ser.

A gravidade e atração gravitacional são bons comparativos para auxiliar a entender a questão. A consciência sofre e exerce este mesmo tipo de força sobre si e sobre externo. À medida que experimentamos eventos e criamos expectativas aumentamos a “atração gravitacional e a gravidade” da verdade relativa. Essa verdade passa a influenciar a nós e ao mundo a nossa volta.

Conciliar o caminhar solitário nas duas verdades na convivência com o mundo exterior é o grande desafio. Muitas vezes o mais fácil é ir para um ou outro extremo, nos isolar ou nos fundir. O que complica um pouco mais é que para o mundo externo existe esta mesma dualidade.

Como então criar um sincronismo entre as verdades relativas do Ser e as verdades relativas do mundo externo?

Fiquei assustado em perceber que comecei a gostar de caminhar sozinho. Refleti sobre as consequências disso, bem como, em quais outras situações em minha vida, o gostar de estar sozinho é verdadeiro ou falso. E como o estar sozinho é diferente de se sentir só.

Iniciei o caminho de Santiago de Compostela sem referências, fui me percebendo e percebendo o mundo exterior. A medida que acumulava experiência sobre o caminho e como meu corpo, mente e consciência reagiam e interpretavam cada situação, criava minha verdade relativa. Fui procurando zonas de conforto e acomodação, a principio, inseguro das escolhas mais adequadas e com o tempo, mais confiante, como em tudo que é novo.

Caminhava com atenção dividida, no corpo, nos pensamentos, nos sentimentos e no mundo externo. Procurava padrões conhecidos e referências já experimentadas. Como este mundo é novo, não encontrava. Isso gerou uma sensação de frustação, solidão, separação e isolamento. A dúvida e a tristeza surgiram.

Como lidar com estes sentimentos em um mundo sem referências?

Procurei ser sincero com meus desejos e sentimentos, reconhecer meu despreparo e inabilidade em lidar com a situação. O milagre aconteceu, o universo cria o sincronismo e com ele, caminho ao meu Ser. Desaparecem a dúvida e a tristeza, surgem a esperança e a alegria.

Comecei a sentir-me confortável no novo mundo. O caminhar deixa de ser solitário, existe um mundo de vida ao redor.

Peregrinos, pessoas locais, pássaros, cachorros, vacas, flores. Árvores, frutos, rios, cachoeiras, vento, sol, frio, calor. Pastos, gramados, igrejas, vilas, povoados, cidades, catedrais, museus. Restaurantes, refeições, ar, terra, agua, vinho... Como poderia me sentir só, solitário em um mundo infinito! Não mais me sinto só, sinto-me grato. Sinto um grande amor me envolver. Amor que recebi do universo, dos meus pais, esposa, família, amigos.

Existe sim um momento de solidão, é o momento da escolha entre dois destinos, duas rotas, dos caminhos.  Esse momento é único, usamos todas as experiências e expectativas, usamos a verdade relativa, usamos as referências exteriores, mas a decisão é individual e solitária. Podemos até fazer de conta que não escolhemos, que nos fundimos e o mundo exterior fez a escolha, mas está verdade não é real. Sim, somos responsáveis pelo nosso destino e a escolha foi feita por nós mesmos.

Este momento de decisão é instantâneo porem, pode deixar uma sensação infinita. Neste ponto voltamos ao começo do texto.

A consciência humana, o Ser, não reconhece ou não sabe lidar com conceitos absolutos. Não entendemos um nada ou um tudo, algo instantâneo ou algo infinito. Necessitamos das referencias externas, de um Eu e um não Eu, de um mundo dual, da sensação temporal.

Agora, se desejamos um mundo com harmonia ou não, é nossa escolha.

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