Entrevista de fim do Projeto!!

Já estou a mais de 100 dias no Brasil, tenho relutado muito em fazer esse texto, mas creio que chegou a hora. O carnaval acabou e parece que o Brasil e eu começamos a vida normal. Nesse tempo procurei me ajustar ao novo ritmo e me readaptar a vida, com os amigos e no trabalho. O Brasil nessa época do ano, do verão até o carnaval, é muito parecido com a Espanha e a Itália entre julho e setembro, tudo fica mais relaxado, em compasso de espera, comigo não podia ser diferente!!

Creio que minha resistência em escrever esse texto, foi também por não desejar considerar o Projeto Sabático terminado, mas é necessário saber o momento de virar a página e seguir em frente, então, vamos lá.

 

Tive vários encontros com amigos me perguntado sobre como foi o projeto, assim, escolhi fazer um texto como se estivesse conversando com um grande amigo, ele fazendo perguntas e eu respondendo. Agora, imagine que estamos sentados em um lugar agradável e você começa a me perguntar:

 

Para facilitar a leitura, vou numerar e colocar todas as perguntas inicialmente, assim você pode escolher e ler apenas as que têm interesse.

 

  1. Clovis, o projeto foi o que você esperava?
  2. Você fez tudo que havia planejado?
  3. Onde foi melhor viver? E as pessoas?
  4. O que mais gostou?
  5. Você faria tudo de novo? O que mudaria?
  6. Alcançou os resultados imaginados?
  7. Quais foram os maiores aprendizados? O que ficou?
  8. Qual foi a melhor coisa do projeto?
  9. Você já sabe como e onde vai viver agora?
  10. Como está sendo o retorno à vida normal?
  11. Como as pessoas estão te vendo agora?
  12. O que mudou na sua vida?
  13. E o caminho de Santiago, é tudo que dizem?
  14. Você já sabe o que vai fazer com a experiência e todo o material que produziu nesse período? Porque não escreve um livro?
  15. E tua esposa, o que pensa de tudo isso?
  16. Tua família comenta algo sobre você, se está diferente?
  17. Você já tem algum novo projeto?

1. Clovis, o projeto foi o que você esperava?

Sim, eu fiz um planejamento para fazer o que acreditava ser importante para mim, não estava buscando resultados concretos, acho que esse pensamento facilitou muito, pois não criei expectativas, tudo que acontecia era bom. Creio que foi tudo muito bom, até melhor do que poderia imaginar.

2. Você fez tudo que havia planejado?

Acho que sim, procurei fazer atividades que poderiam me proporcionar experiências alinhadas com o que desejava me aprimorar. As aulas de pintura, cerâmica, desenho, teatro, culinária, filosofia, mandalas, participar de grupos de amigos, envolver-me com as famílias das pessoas locais, as caminhadas e os passeios, muitas coisas.

Um dos aprendizados legais do caminho de Santiago foi aprende a dar maior importância para o como, do que, para onde ou por onde. Ou seja, é bom sabermos para onde estamos indo, em direção a Santiago de Compostela, é bom saber qual o caminho estou seguindo, Caminho Frances, mais o essencial é como estou caminhado no momento, se estou bem agora, feliz, alegre, satisfeito e fazendo meu melhor, com certeza quando chegar ao destino, terei essa mesma sensação de bem estar. É isso que sinto quanto a tudo que planejei e fiz nesse projeto.

3. Onde foi melhor viver? E as pessoas?

Essa é uma pergunta difícil e com certeza politicamente incorreta de ser respondida. Eu me senti muito bem e acolhido, tanto na Espanha como na Itália, os dois locais foram maravilhosos, não poderia ter escolhido melhores locais, Alicante e Siena. São lugares bastante diferentes e com características próprias, gostei dos dois e repetiria a dose. A mesma coisa vale para as pessoas, ambas foram cativantes, cada uma ao seu modo. Devo ser sincero, o povo italiano é mais parecido com o que estava acostumado no Brasil, não é para menos, tenho 75% de sangue genuinamente italiano, 12,5% Sírio e 12,5% Alemão. Senti-me vivendo em paraísos, a beleza a minha volta, tanto na Toscana como na costa do Mediterrâneo é exuberante, quem já conheceu pode confirmar. Mas, acho que todos os locais do mundo tem encanto, basta estarmos conectados com a nossa própria beleza interior.

4. O que mais gostou?

Não dá para fazer uma pergunta mais fácil!!! Eu gostei de tanta coisa, ou melhor, de tudo. Mas se tenho que escolher, penso que foi a possibilidade de experimentar uma nova vida, onde ninguém me conhecia, eu não tinha rótulos e sentia-me livre para me comportar da forma que parecesse melhor, pude ser espontâneo e me reinventar, sem criticas ou comparações. Resumindo, sentir e viver a liberdade de ser livre e ser quem Sou!!

Conheci tantos lugares bonitos e fiz tanta coisa boa, que sinceramente não é fácil escolher, assim sendo, gostei de tudo.

5. Você faria tudo de novo? O que mudaria?

Fácil, sim, sim e sim. Mudar algo, acho que não seria necessário, porém faria pequenos ajustes; 1) Prestaria atenção no ciclo do local que iria morar, por exemplo, no Brasil é de janeiro a dezembro, mas na Europa é de julho a junho; 2) Permaneceria por um ciclo completo no mesmo local; 3) Estudaria melhor o idioma antes da viagem, isso daria maior velocidade as interações com as pessoas; 4) Não moraria em lugares diferentes, melhor seria ter ficado em apenas um pais, deu um bocado de trabalho montar a infraestrutura para viver, apreender a se movimentar e encontrar as pessoas e atividades que desejava fazer.

6. Alcançou os resultados imaginados?

Essa pergunta é parecida com as perguntas 1 e 2, mas vou procurar completar a ideia. Estou feliz com quem Sou, não tinha um resultado concreto imaginado, mas sim, um ideal a ser vivido, isso eu alcancei. O que posso dizer, é que sinto que os 2 anos de projeto sabático pareceram como se tivesse vivido por 20 anos, tenho relido meus textos e vejo quanta coisa que fiz, essa sensação de ter vivido na plenitude é grandiosa, supera qualquer resultado imaginado.

7. Quais foram os maiores aprendizados? O que ficou?

Vou me esforçar para dar uma boa resposta, pois acho que isso pode ser a essência do projeto. Vou resumir em 5 pontos:

1) Ter uma vida com propósito e projetos. Ter um sentido

2) Saber, acreditar e reconhecer que nossa vida tem sentido, que não estamos aqui por um acaso e que fazemos parte de um grande projeto, um projeto divino. Somos parte de um Todo

3) Viver plenamente no presente, aproveitar ao máximo e com boa vontade, todas as experiências, pois temos um prazo para fazer o projeto e esse tempo vai acabar. Finitude e viver intensamente

4) Reconhecer que o ser humano, é sempre humano, tem desejos, sentimentos e necessidades, muito semelhantes, não importa o local que mora, sua condição ou qualquer outro fator. Igualdade

5) Apreender a ser um observador de mim mesmo, ter atenção nos meus pensamentos, sentimentos e ações, perceber se eles estão alinhados ou não com meu propósito e projeto de vida. Sem fazer avaliações ou maus juízos, apenas corrigir o rumo ou mudar o destino. Consciência de observador

8. Qual foi a melhor coisa do projeto?

Por mais estranho que pareça, a melhor coisa do projeto foi sentir, por 4 vezes, o sentimento de profunda gratidão, senti-me grato por tudo, pela vida, pelas pessoas, pela natureza. Isso aconteceu quando estava sentado em um muro no caminho de Santiago, no dia que chegava de bicicleta a Sevilla, no avião retornando para o Brasil e meditando no retiro em Garopaba, todos esses momentos têm textos escritos no blog.  Não é fácil descrever o que senti, é uma mistura de choro, alegria, presença, lucidez, acolhimento, completude e paz, tudo junto. É algo que brota no interior e dá luz e sentido para tudo que existe. Palavras como êxtase, arrebatamento, samadhi, iluminação, bem-aventurança podem ser uma tradução do que esse sentimento de gratidão proporciona. E também, conseguir enxergar que todo ser humano é um anjo, que nos ajuda e proporciona exatamente aquilo que necessitamos, os anjos estão o tempo todo ao nosso lado, basta ver e pedir. Está em nossas mãos e olhos conseguir revelar isso, e retirar o véu que nos isola desse mundo de abundancia e boa vontade. Eu encontrei pessoalmente muitos.

9. Você já sabe como e onde vai viver agora?

Ainda não consegui me decidir onde vou morar, continuo em Curitiba e pretendo ficar por aqui mais alguns meses. O clima ruim tem me assustado, nesses 100 dias não teve sequer um dia inteiro de sol. Vou procurar entrar em sintonia com o universo e esperar que as boas opções surjam, minha preferência é uma cidade na beira do mar. A experiência de viver em Alicante, nesse aspecto, foi muito boa, o mar parece que suaviza as coisas. Pretendo viver de uma forma bem equilibrada, não quero perder o investimento feito nesses últimos 2 anos, para isso irei fazer várias atividades de manutenção, cursos, viagens, retiros, quero me manter em contato com o mundo do sentir.

10. Como está sendo o retorno à vida normal?

Estou bem motivado e tenho fé que conseguirei aproveitar toda a lucidez que obtive e manifestá-la no dia a dia. Notei como é fácil retornar aos velhos hábitos, mesmo aqueles que já foram abandonados. Em uma conversa com um lama Tibetano, ele me alertou para isso, que os automatismos ficam a espreita de uma oportunidade, ao menor descuido eles se instalam e nem percebemos. Já estou trabalhando e participando de novos projetos, estou procurando não me envolver com as atividades que fazia antes, tenho certeza que as pessoas que estão responsáveis são capazes e apreenderam muito nesse tempo.  Percebi como a rotina coletiva de trabalho, da família, das viagens toma conta da vida, é necessária uma grande atenção para não se envolver e perder a consciência, mantendo firmeza no proposito e no projeto de vida.

11. Como as pessoas estão te vendo agora?

Ainda tive poucos feedbacks, não sei se por não ter tempo suficiente de convivência, ou se por desconforto de abordar o assunto ou ainda se eu não proporcionei oportunidades para isso. Os que tive, foram um pouco conflitantes:

- Mais maleável

- Um pouco prepotente e orgulhoso

- Não mudou nada

- Mais equilibrado

- Melhor ouvinte

Acredito que essa contradição é normal, tenho o objetivo de ser transparente e honesto e não alguém que se molda para agradar e manipular.  Quero sim, desenvolver uma boa diplomacia e ser capaz de ser eu mesmo sem criar conflitos, considerando as necessidades dos outros sem abandonar as minhas. Agradar a todos é impossível, principalmente quando os rótulos e os traumas são fortes, sei que eu fui o responsável por isso e creio que com leveza e boa vontade, os conflitos de opinião podem sair da pessoa e se focalizar no fato, o que proporciona a busca de soluções sem condenações.

12. O que mudou na sua vida?

Sinto-me vivendo o presente com mais intensidade, escuto um pouco mais, percebo melhor a necessidade do outro, mais paciente, seguro que o equilíbrio entre razão e sentimento é a melhor opção.  Amadurecido e alegre, buscando colaborar para que o mundo que vivo também encontre esse equilíbrio. Tenho clareza do que não quero mais para minha vida: trânsito, correria, tensão, mau humor, competição, disputa, dessa coisas, abro mão, não existe preço que pague uma vida com harmonia e alegria real, com base no Ser feliz e não no Ter para Ser.

13. E o caminho de Santiago, é tudo que dizem?

Quando me aconselharam a fazer o caminho, eu relutei um pouco em aceitar, mas agradeço muito a indicação. Foi uma experiência gostosa, aprendi muito sobre eu mesmo e como eu desvendo o mundo. Para quem não sabe, existem vários caminhos (rotas) que levam a Santiago, não existe um ponto de início fixo, o caminho mais conhecido pelos brasileiros é o caminho Frances. A parte com mais infraestrutura de albergues, sinalização, restaurantes e apoio são nos últimos 800 km (na Espanha), assim, para quem não tem muito tempo ou quer andar menos, pode calcular quanto deseja andar e começa a essa distancia de Santiago. Não é necessário fazer todo o caminho, pode começar em uma cidade no meio do trajeto. Os albergues e pousadas são bons e baratos, os peregrinos são legais e as pessoas locais, hospitaleiras. É tudo de bom, dá para repetir, vai uma dica, vá no mês de maio.

14. Já sabe o que vai fazer com a experiência e todo o material que produziu nesse período? Porque não escreve um livro?

Ainda não estou pensando isso, tudo que fiz e escrevi foi importante para mim. Os meus trabalhos de pintura e cerâmica, desejo mostrar para os amigos, quem sabe fazer um encontro com uma exposição! Ainda vou preparar uma apresentação com o resumo do projeto e mostrar para os interessados, minha ideia é compartilhar as experiências que tive e colaborar com quem precise de alguma ajuda. Quanto a escrever um livro, quem sabe, transformar tudo que já escrevi em um, gostei de escrever, mas dá trabalho, se aparecer algum interessado no material e a me ajudar, posso avaliar. Acho que já existem tantos livros bons, que não vejo como essencial escrever um. Para mim, o principal é compartilhar o conhecimento, preferencialmente de pessoa para pessoa, e isso eu desejo continuar fazendo.

15. E tua esposa, o que pensa de tudo isso?

Pergunta difícil, para ela esse projeto não foi fácil, no inicio eu fui e ela ficou, nem eu, nem ela tínhamos segurança como iria ficar nossa relação. Depois que ela foi para a Espanha, tivemos todo um tempo para readaptar a vida de casal, eu continuava inseguro e ela sentia que pisava em ovos. Com o tempo fomos nos ajustando, no momento a indefinição de onde morar dificulta as coisas, mas acho que falta pouco para concluir todo esse processo e colher os resultados. Esforço e determinação de ambos, não faltam. Achei interessante fazer para ela essa pergunta, segue sua resposta:

“Por ter escolhido, desde sempre que estivemos juntos, um caminho de autoconhecimento, grande parte de nossa jornada juntos, vida e evolução e, mesmo porque, a nossa parceria sempre me trouxe grandes desafios e me inspirou nessa busca de vida com plenitude. Tive uma identificação com o seu ideal, pela necessidade de me melhorar, compartilhar e aprender junto e também por te amar e pelo desejo de te apoiar e estar ao seu lado para renovar e fortificar nossa relação amorosa e nosso casamento. E pela grande oportunidade de poder usufruir desse sabático que tanto me proporcionou, realizei uma experiência de conhecimento cultural, pessoal, com prêmios de novas amizades, mais coragem, ampliação da visão de vida em outra cultura proporcionado pela convivência e estudo com grupo de teatro experimental, participação num grupo de aperfeiçoamento de Reiki, aprendizado de 2 línguas novas, nossas experiências gastronômicas e artísticas, enfim um legado que sou muito grata por ter vivido e compartilhado com meu esposo e o mais importante, poder ter acompanhado suas experiências, sua dedicação profunda e disciplina a tudo que se que propunha a fazer, podendo assim admirar ainda mais sua personalidade e determinação em sempre fazer o melhor e se melhorar em todas os aspectos. Com a grande dádiva da liberdade de estarmos fora do contexto e dos padrões estabelecidos de nossa vida ordinária para termos  uma experiência extraordinária.

O projeto continua, é um projeto de vida e de felicidade e minha gratidão por fazer parte dele. Com amor.”

16. Tua família comenta algo sobre você, se está diferente?

Da mesma forma que os amigos, os comentários são poucos, não estou nessa busca, mas espero que as diferenças sejam para melhor!! Uma coisa interessante que fiz no projeto e ainda não tinha comentado é que, durante todo esse tempo fui fazendo (pesquisas) testes de comportamentos, usando um ferramenta chamada de Ciclos das Reações Comportamentais, ela leva em conta que todo ser humano tem em sua personalidade padrões múltiplos de comportamento que lhe permitem agir de formas diversas, em situações que requerem tais diferenças, ainda que respeitando preferências e padrões de comportamento. Esses testes comprovaram isso, mas o mais importante é que, de certa forma eu consegui inclusive mudar o padrão do “self”, mostrando que quando fazemos um trabalho determinado com objetivo é possível moldar a si mesmo.

17. Você já tem algum novo projeto?

Sim, para quem leu alguns textos anteriores, vai lembrar, é um projeto com nome de: Projeto de Vida, lapidando Ideias e criando Significado.  Ele já está pronto e deve ser meu último texto do Projeto Sabático, provavelmente em poucos dias irei postá-lo no Blog.

 

Espero que tenham gostado do papo, caso tenha outras perguntas, terei o máximo prazer em responder.

 

Obrigado por me escutar (ou seja, ler), saiba que para mim foi um grande aprendizado colocar em palavras o que vi, vivi e senti. Tive muita satisfação em escrever, esse exercício fez com que eu refletisse sobre os pontos e criasse uma memória do que foi acontecendo comigo nesses 2 anos, caso contrário poderia ter perdido grande parte do significado que o projeto teve para mim.

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